Mostrando postagens com marcador separação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador separação. Mostrar todas as postagens

1 de maio de 2010

a dor da separação (para minha amiga - A -)

tenha uma certeza, vai passar
apesar da angústia insuportável
do pavor da solidão
da insônia maldita que assombra teus sonhos

de ser feliz de novo
da culpa -injusta- de não ter feito mais para salvar a relação
da falta de afeto que transforma teu corpo
da falta de conversas alegres que lhe deixa tão sem assunto
da falta de perspectivas
tenha uma certeza, vai passar

eu entendo que teu horizonte está curto
que teus pensamentos estão negros
que tuas risadas estão histéricas
tuas garras afiadas
teu desejo congelado
teus olhos entristecidos
mas vai, força
tenha uma certeza, vai passar

eu sei o quanto é irritante quando lhe aponto
a possibilidade de vencer,
saí dessa cadeira em que agora sentas, há bem

pouco tempo...
mas você não pode seguir sem esperança,
mesmo que ela esteja invisível

- pelo fato de você não a enxergar -
ela tem que estar no seu caminho
não a abandone

há dores tão distintas e todas tão medonhas,
porém todas abrem seus caminhos na lama e seguem seu
rumo de rio até se transformarem em outra coisa,
ás vezes, se alentam e voltam positivas
ás vezes, apenas se transformam em
algo que não seja apenas dor,
mas tudo se modifica com o tempo
então tenha uma certeza, vai passar

os mecanismos de sobrevivência divergem
são altamente pessoais e intransferíveis
mas têm que ser buscados
diria até, perseguidos
a inércia é teu pior inimigo nesse momento
o enfrentamento é assustador, porém imprescindível
vai, segue, pois tudo passa

conte com você
e com os poucos que lhe dão amor sem perguntas
conte com teus instintos menos mundanos
com teus infalíveis dispositivos de emergência
com teus íntimos sextos, sétimos, oitavos sentidos
e siga, ande, continue em frente
vai passar

siga que a vida lhe mostrará essa fase no tempo

verbal das lembranças...
ahhh, amiga!! e não espere grandes acontecimentos, uma grande marca de superação, pois a hora dessa vitória não é grandiosa, nem é excitante, alegre ou explícita, você não sabe exatamente como aconteceu... simplesmente você se pega apontando um caminho de esperança para alguém que você quer bem e falando daquela dor no passado, só isso...


Cláudia/Abril 2010

30 de janeiro de 2010

separação

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo possível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de secionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido; sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoava com seus beijos e agasalhara no instante de amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias por ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...

Vinícius de Moraes